Jules Lequier

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(1814 - 1862)



Filósofo francês. Nasceu em Quinti, Côtesdu-Nord, na Bretanha, em 1814. Morreu em Plérin, próximo a Saint-Brieuc. 

Em 1834 frequentou a Escola Politécnica, entretanto, quatro anos depois, apresentou oficialmente sua desistência do curso. Mais tarde, sobrecarregado de dívidas mas possuindo altas ambições filosóficas, em 1851 foi internado no asilo de Lehon, próximo a Dinan e depois, numa clínica de Paris.

Exaltando sua fé na liberdade, foi considerado posteriormente o Soren Kierkegaard (1813 - 1855) francês, sendo autor de La Recherche d'une première verité (1865) e La Feuille de Charmille - obras fragmentadas, inacabadas e publicadas postumamente. Decepcionado com a existência que o amargava tanto, suicidou-se, afogando-se na baía de Saint-Brieuc.

O crítico e também filósofo Charles-Bernand Renouvier (1815 - 1903) que fora seu discípulo escreveu-lhe a biografia e mandou erigir-lhe um monumento em Plérin. No entanto,foi com a obra de Jean Grenier e os artistas contemporâneos que Lequier teve algum reconhecimento obtido.

Final de 2009 foi criado da Associação "Amigos da Jules Lequier", a fim de reunir pessoas interessadas na vida e obra de Jules Lequier e divulgar o filósofo para o público. Esta associação publica um relatório anual: Cahiers Jules Lequier, com a ajuda de Edições brilho, a primeira data de emissão de 2010.


Fragmento:

“Apercebo-me de que se tudo em nós está submetido à necessidade, nem sequer posso afirmar que tudo está submetido à necessidade, porque esta proposição será necessária e, por consequência, não poderei distingui-la de qualquer outra. Se tudo é necessário, a própria ciência é impotente, e não posso procurar distinguir a verdade do erro: nem sequer sei se a verdade e o erro existem porque não posso saber nada. Para poder distinguir a verdade do erro, deverei, ao que me parece, ser livre; mas esta liberdade é contestada; uns negam-na, outros divergem sobre a maneira de a definir, nenhuma a compreende”.

Jules Lequier, “Ouvres Completes” ― J. Grenier, 1952


Imagens:
Túmulo do filósofo.




Única imagem de Jules Lequier.


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Ana Cristina César

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(1952 - 1983)


Poeta, ensaísta, crítica e tradutora brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro a 2 de junho de 1952. Morreu na mesma cidade, a 29 de outubro de 1983. 

Filha do sociólogo e jornalista Waldo Aranha Lenz Cesar e de Maria Luiza Cruz, Ana Cristina nasceu em uma família culta e protestante de classe média. Tinha dois irmãos, Flávio e Filipe. Diz-se que ainda enquanto criança já recitava poemas para sua mãe. De formação presbiteriana, tornou-se professora de português e inglês, tendo traduzido vários trabalhos (incluindo poemas de Sylvia Plath [1934 - 1963]) e militado na imprensa como resenhista. Na década de setenta começou a publicar poemas e textos de prosa poética em coletâneas. Escreveu para o Jornal do Brasil, Correio Brasiliense, Folha de S. Paulo, Veja e Isto É. Sua obra versa entre o ficcional e o autobiográfico.

Autora de Cenas de Abril (1979); Correspondência completa (1979); Luvas de pelica (Inglaterra, 1980) e A teus pés (1982).

Em grave crise depressiva devido a um frustrado amor homossexual, a 29 de outubro de 1983, atirou-se do sétimo andar do seu apartamento na rua Tonelero onde estava sob cuidados de uma enfermeira.

Adendo de acordo com a Wikipédia:

"Armando Freitas Filho, poeta brasileiro, foi o melhor amigo de Ana Cristina Cesar, para quem ela deixou a responsabilidade de cuidar postumamente das suas publicações. O acervo pessoal da autora está sob tutela do Instituto Moreira Salles. A família fez a doação mediante a promessa dos escritos ficarem no Rio de Janeiro. Contudo, sabe-se que muitas cartas de Ana Cristina Cesar foram censuradas pela família, principalmente as recebidas do escritor Caio Fernando Abreu."


Obras:

Poesia
A Teus Pés - (1982)
Inéditos e Dispersos - (1985)
Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho)

Crítica
Literatura não é documento - (1980)
Crítica e Tradução - (1999)

Variados
Correspondência Incompleta
Escritos no Rio (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho)
Escritos em Londres (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho)
Antologia 26 Poetas Hoje, de Heloísa Buarque


Matéria na Folha de SP:


Fora de catálogo, Ana C. Cesar voltará às livrarias


Companhia das Letras adquiriu prosa e poemas da poeta carioca e planeja volume no estilo do 'Toda Poesia', de Paulo Leminski
Nome maior da poesia dos anos 1970 ganha reedição no fim do ano, quando se completam 30 anos de sua morteRAQUEL COZERENVIADA ESPECIAL AO RIO

O bigodão de Paulo Leminski, que há sete meses ocupa lugar de destaque nas livrarias, ganhará em breve a companhia de uns óculos escuros redondinhos tão simbólicos da poesia brasileira dos anos 1970 quanto ele.

Há anos fora de catálogo, a obra híbrida de prosa e poesia da carioca Ana Cristina Cesar (1952-1983) foi adquirida, nos últimos dias, pela Companhia das Letras.

A casa planeja para novembro um volume alentado, no estilo do "Toda Poesia" de Leminski, que saiu em fevereiro com 5.000 exemplares e já vendeu dez vezes isso.

A partir de 2014, novas edições devem sair do acervo mantido desde 1999 no Instituto Moreira Salles, no Rio. A curadoria é de Armando Freitas Filho, amigo a quem a poeta delegou a responsabilidade de cuidar de sua obra.

Dona de uma poesia tão sedutora quanto ela própria, Ana C., como gostava de ser chamada, repercutia em seus escritos as influências pop, incluindo música e cinema, que marcaram sua geração.

Mas agregava a isso sua origem erudita --filha de sociólogo com professora de literatura, com mestrados pela UFRJ e pela Universidade de Essex, na Inglaterra, tem trabalho elogiado na área de crítica literária e tradução.

"Além do lado cult, que gera estudos na universidade, ela tem um viés pop que combina com as redes, um potencial que buscamos ressaltar na obra do Leminski", diz a editora Sofia Mariutti.

RETORNO

Ana C. teve apenas um livro publicado por editora em vida, "A Teus Pés" (1982), justo pela Brasiliense da qual poucos anos depois o editor Luiz Schwarcz sairia para criar a Companhia das Letras.

A obra trazia poemas inéditos junto ao conteúdo das edições independentes "Cenas de Abril" (1979), "Correspondência Completa" (1979) e "Luvas de Pelica" (1980).

Antes de morrer, um ano após a publicação de "A Teus Pés", ela teve o raro prazer para um poeta de ver sair uma segunda tiragem de seu livro. Com a última edição pela Ática datada de 2002, "A Teus Pés" hoje é oferecido em sebos on-line por preços que variam de R$ 70 a R$ 190.

A edição da Companhia das Letras deve ter cerca de 500 páginas, com os independentes, "A Teus Pés", o póstumo "Inéditos e Dispersos" (1985) e alguns textos de "Antigos e Soltos" (IMS, 2008). A meta é que custe menos de R$ 50.


Vídeo:

"Um navio no espaço, ou Ana Cristina César", A peça conta a história da vida e obra da poetisa carioca Ana Cristina César. A dupla considera a jovem poeta um grande gênio da sua época e transporta para o palco, em Um Navio no Espaço, sua busca e suas angústias. Sua trajetória é retratada desde a infância até sua morte provocada por ela mesma aos 30 anos de idade.

http://www.youtube.com/watch?list=PLDluqyFL-QfyU8Eo9HZYnixf66xIx9svK&v=2-JUGjq4nRg


Fotos:



Ana Cristina César aos 4 anos.


















Ana Cristina C. em Paris.

 


Poemas:

Sonho Rápido de Abril

 As ambulâncias se calaram
as crianças suspenderam a voracidade batuta
dois versos deliraram por detrás dos túneis
moleza nos joelhos
mão de ferro nos peitinhos
tristeza suarenta, locomotiva, fútil
patinho feio
soldadinho de chumbo
manto de jacó, escada de jacó
sete anos de pastor
estrela demente desfilando na janela
de repente as ambulâncias estancaram o choro
voraz dos bebês.
*

Mocidade Independente

Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem
medir as consequências. Por que recusamos ser proféticas? E
que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra
cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma
graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por
você, e furiosa: é agora, nesta contramão.

*
  
Olho muito tempo o corpo de um poema

Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas.

*
 
Noite de Natal

Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera.

*

Tu Queres Sono: Despe-te dos Ruídos 
 
Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.

*

Inverno Europeu

Daqui é mais difícil: país estrangeiro, onde o creme de leite é desconjunturado e a subjetividade se parece com um roubo inicial.
Recomendo cautela. Não personagem do seu livro e nem que você queira não me recorta no horizonte teórico da década passada. Os militantes sensuais passam a bola: depressão legítima ou charme diante das mulheres inquietas que só elas? Manifesto: segura a bola; eu de conviva não digo nada e indiscretíssima descalço as luvas (no máximo) à direita de quem entra.

(De A teus pés, 1982)

*
 
Quarto do suicida

Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta – um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os rnoralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito retos.

E não era sem saída este quarto,
aos menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo – ou seja, ainda viva.

Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma -
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.

Tradução: Ana Cristina Cesar em colaboração com a polonesa Grazyna Drabik.


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